segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Peculiaridades do Mundo do Dinheiro

A fotografia a seguir foi tirada em 09/01/2017, no supermercado Pão de Açúcar, localizado na Rua Pamplona, em São Paulo, capital.

Ela mostra um aviso colocado na entrada do supermercado. A placa diz que essa unidade do Pão de Açúcar dá de brinde uma coca-cola de 2 litros para o cliente que trouxer mais de R$ 100,00 em moedas para troca. O aviso até especifica quais moedas são necessárias para o brinde: as de R$ 0,05, R$ 0,10, R$ 0,25 e R$ 0,50. Aparentemente, as moedas de R$ 0,01 e R$ 1,00 não valem.

Esse é um exemplo atípico, no qual um participante do mercado dá valores diferentes para uma quantidade de dinheiro de mesma denominação. Para o supermercado, o montante de R$ 100 em moedas vale mais do que o montante de R$ 100 em cédulas, já que ele está disposto a adquirir R$ 100 em moedas dando em troca a mesma denominação de R$ 100 em cédulas e mais uma coca-cola de 2 litros.

A situação normal, porém, não é essa. O mais usual é que tanto compradores quanto vendedores no geral considerem cédulas e moedas equivalentes em valor, desde que tenham a mesma denominação. Assim, o usual é que as pessoas considerem vinte moedas denominadas em R$ 0,50 equivalentes a uma cédula de R$ 10,00, por exemplo. O padrão é que ninguém esteja disposto a pagar um brinde para trocar cédulas por moedas de mesma denominação.

Por que esse supermercado considera as moedas mais valiosas do que as cédulas?

O leitor atento já sabe a resposta. Provavelmente isso acontece por causa da falta de troco. Todos nós já passamos pela seguinte situação: Você vai no supermercado e o atendente diz que sua compra ficou em R$ 14,15. Ele, sabendo que o caixa não tem nenhuma moeda, pergunta "Senhor, você teria dinheiro trocado?" Você responde que não e, depois de perguntar a todos os seus colegas e revirar o supermercado inteiro, o atendente percebe que não tem jeito e opta por te dar um desconto. Como ele não tem moedas de troco, ele vai arredondar o valor da sua compra para baixo, para R$ 14,00. O supermercado vai arcar com a perda de R$ 0,15.

Para evitar perdas com falta de troco, o supermercado está disposto a dar brindes para quem quiser trazer moedas, como um incentivo. O supermercado está inclusive disposto a abrir mão de uma coca-cola a cada R$ 100,00, provavelmente porque isso reduz as perdas no fim do dia.

Toda essa discussão traz algumas perguntas interessantes: Por quê as pessoas avaliam que cédulas e moedas de mesma denominação são equivalente em valor? Que mecanismo garante essa paridade? Em que circunstâncias isso pode não acontecer?

Essas perguntas na verdade são mais complexas do que parecem. Vamos responder começando com alguns conceitos.

Base Monetária
O conceito conhecido por economistas como Base Monetária compreende os seguintes instrumentos:

  • Moedas de real em todas as suas denominações vigentes (R$ 0,01, R$ 0,05, R$ 0,10, R$ 0,25, R$ 0,50 e R$ 1,00)
  • Cédulas de real em todas as suas denominações vigentes (R$ 2,00, R$ 5,00, R$ 10,00, R$ 20,00, R$ 50,00, R$ 100,00 e a não mais emitida mas ainda válida nota de R$ 1,00).
  • Reservas Bancárias, que é uma versão eletrônica das moedas ou cédulas. Você provavelmente nunca ouviu falar de Reservas Bancárias porque esse instrumento é disponibilizado apenas aos bancos. Nós, pessoas físicas, não temos contato direto com as Reservas.

Equivalência de valor
Diz-se que duas cédulas de R$ 50,00 têm o mesmo valor que uma única cédula denominada em R$ 100,00 quando essas duas alternativas têm o mesmo poder de compra. Essa é a situação normal.

Porém, como já vimos, podem existir situações atípicas, quando instrumentos de mesma denominação não são considerados equivalentes, possuindo poderes de compra distintos. Se você conseguir comprar mais produtos com uma única cédula de R$ 100,00 do que com duas cédulas de R$ 50,00, dizemos que essas duas alternativas não têm a mesma equivalência de valor, apesar de ambas terem a mesma denominação total (de R$ 100,00).

O que garante a equivalência de valor?
Existem alguns fatores que garantem a equivalência de valor entre as diversas cédulas, moedas, e Reservas Bancárias.

O primeiro fator é o fato de o Banco Central do Brasil ou agentes que o representam disponibilizarem um canal de permuta entre os diversos instrumentos. Inclusive, você, pessoa física, pode ir até o Banco Central do Brasil ou determinados postos do Banco do Brasil ("representante" do Banco Central nesse aspecto) e realizar a permuta de dez moedas de R$ 1,00 por uma cédula de R$ 10,00 e vice-versa. Bancos comerciais realizam essas permutas também, trocando frequentemente cédulas, moedas e Reservas Bancárias entre si, conforme disponibilizado pelo Banco Central. É um dos papéis do Banco Central garantir uma produção adequada de cédulas e moedas para atender o público.

O segundo fator é o fato de os diversos órgãos de arrecadação dos governos não distinguirem notas, cédulas e Reservas Bancárias no momento de recolher os tributos. Para esses órgãos, R$ 10,00 em moedas, em células ou em Reservas Bancárias são equivalentes. Talvez você não saiba disso, mas os bancos que realizam a intermediação financeira e executam o pagamento de tributos por você certamente estão cientes dessa característica.

Um fator adicional, importante em certos países, é a dificuldade de falsificação. Notas de valor alto são mais susceptíveis a falsificação, e as vezes são desvalorizadas por causa disso.

A situação atípica exemplificada pelo supermercado pode acontecer quando alguns desses canais falham ou se tornam custosos. Por exemplo, muitas vezes, o Banco Central acaba não disponibilizando a quantidade ideal de dinheiro trocado, ou torna o processo de permuta muito trabalhoso. Esse cenário contribui para situações fora do normal, quando comerciantes começam a valorizar mais as moedas, por exemplo.

E as expectativas? E o curso forçado?
Bem, tem sempre alguém que acredita que existe algum fenômeno psicológico ou sobrenatural que faz com que o público no geral valorize cédulas e moedas da mesma forma. Outros acreditam que basta o governo declarar que uma cédula de R$ 2,00 equivale a duas moedas de R$ 1,00 e pronto, magicamente as pessoas começam a respeitar essa declaração. Ou talvez a imposição de uma lei de curso forçado seja o mecanismo que garanta a paridade de valor entre instrumentos de mesma denominação - o que é mais razoável, mas, na prática, não se mostra verdadeiro.

A história já mostrou que não são esses fatores que determinam o valor da moeda. O povo brasileiro não é muito inclinado a respeitar leis, mesmo quando a fiscalização é dura, então fica difícil imaginar que uma mera declaração é suficiente para definir o comportamento das pessoas. Brincadeiras à parte, uma simples declaração de autoridades nunca seria suficiente para impor regras à sociedade. É necessário no mínimo alguma lei, com fiscalização e algum tipo de punição aplicável no caso de desobediência. É assim que o mundo real funciona.

O público é muito rápido em perceber oportunidades para sair ganhando em cima de diferenças em cédulas e moedas. Algum tipo de efeito psicológico pode fazer com que os valores de cédulas e moedas de mesma denominação fique equalizado por certo tempo, mas se surgir algum motivo que realmente torne moedas mais valiosas que cédulas (ou vice versa), o público vai perceber e saber explorar essa diferença. Então os efeitos psicológicos e as declarações do governo não têm grande influência na equalização de valores das cédulas, moedas e Reservas Bancárias.

Além disso, as regras de curso forçado são inexistentes em muitos casos, ou no mínimo extremamente difíceis de serem impostas à população e fiscalizadas. Existem poucos casos em que essas leis são reforçadas por tribunais, e eles são irrelevantes para a percepção do público como um todo. A população naturalmente vai diferenciar cédulas e moedas de mesma denominação se perceber que esses instrumentos realmente possuem valores distintos. Não é uma lei de curso forçado que vai mudar isso.

Existem alguns países no mundo que passaram por momentos econômicos turbulentos, e os cidadãos optaram por começar a utilizar uma moeda estrangeira (como o dólar) ao invés da moeda local.
Nessas situações os governos muitas vezes tentaram impor uma taxa de câmbio entre o dólar americano e a moeda local. Por exemplo, as autoridades tentaram impor por decreto que 1 dólar era equivalente a 1 unidade da moeda local.

Na prática, esses decretos sempre acabaram falhando. Eles são ignorados completamente ou o mercado negro se torna maior e mais importante que o mercado legal. Os cidadãos não valorizam a nota de 1 dólar da mesma forma que 1 unidade da moeda local só porque ambas têm o número 1 inscrito. Qualquer efeito psicológico dessa maneira é atropelado quando se percebe que as diferentes cédulas realmente possuem diferentes valores. Nessas horas, pouco importa também o que o governo declarou ou deixou de declarar. Além disso, as leis de curso forçado podem ser aplicadas aqui e ali, forçando a paridade oficial e prejudicando alguns comerciantes de vez em quando, mas, na prática, a população adota sua própria valorização e o mercado negro se expande de forma incontrolável. (Esses acontecimentos são interessantes e talvez sejam tema de alguns posts futuros, quem sabe.)

A história mostrou que não são efeitos psicológicos, declarações ou leis de curso forçado que fazem duas cédulas parecidas e de mesma denominação terem o mesmo valor.

Conclusão
Espero que com esse exemplo eu tenha conseguido introduzir os conceitos de moedas, cédulas e Reservas Bancárias para você, leitor, mesmo que superficialmente. Eles serão recorrentes nos diversos posts que tenho em mente para as próximas semanas. Pretendo fazer um post mais sofisticado em breve. Abraços!