No dia 13/01/2017,
um tema polêmico foi trazido à tona pelo renomado economista André Lara
Resende, que gerou bastante polêmica.
Para quem não tem
familiaridade com o mundo dos economistas, André foi formado em economia pela
PUC-Rio e depois obteve título de Phd em economia pelo MIT. Já foi sócio
fundador de um banco, depois trabalhou no setor público, sendo um dos
economistas chave para o Plano Cruzado e para o Plano Real, e já foi diretor do Banco Central do Brasil e presidente do BNDES. Portanto, ele não é um comentarista
econômico qualquer, sem experiência de mercado. Dado seu curriculum, o esperado
é que ele tenha bastante experiência em temas econômicos muito relevantes.
André criou grande
polêmica ao publicar artigo no jornal Valor Econômico que questionava uma das
teorias mais fundamentais do pensamento ortodoxo das ciências econômicas. Ele
declarou que um aumento da taxa básica de juros da economia – a taxa Selic –
poderia contribuir para o aumento da
inflação, e não sua redução, como a teoria ortodoxa defende. Isso não é pouca
coisa.
Depois desse artigo,
alguns economistas tomaram lados. Alguns defendem a visão de André Lara
Resende, e outros a criticam. Entre os críticos, está Eduardo Loyo, economista-chefe
do Banco BTG Pactual, que publicou um “artigo resposta” em 03/02/2017, no próprio jornal Valor Econômico. Esse também é um economista de peso, com um
curriculum importante.
Nesse post, vou
fazer alguns comentários a respeito do artigo de Loya, para colocar mais
polêmica ainda no assunto ao trazer a visão de outras teorias econômicas, ditas
“heterodoxas”. Porém, meu principal ponto neste post não tem a ver
especificamente com o que o André Lara Resende, o Loya ou qualquer outro
economista escreveu a respeito dessa polêmica.
O ponto principal
que quero trazer é a falta de convergência da teoria econômica mesmo em seus
pontos mais fundamentais. A atual polêmica discutida no Valor é apenas um
exemplo. Para aqueles que acompanham jornais estrangeiros e blog de economistas
renomados do mundo inteiro, isso já está claro. Os principais economistas,
mesmo aqueles com o “Nobel” em economia – que são aqueles mais reconhecidos
pela própria comunidade de economistas – simplesmente não conseguem concordar
uns com os outros, e muitas polêmicas e até brigas estão facilmente acessíveis
na internet. Paul Krugman e Joseph Stiglitz são exemplos de alguns dos
economistas “Nobel” polêmicos.
Infelizmente, o
ensino de graduação ou pós-graduação em economia no mundo inteiro é geralmente enganoso.
Esses cursos são inconscientemente ou conscientemente colocados de forma a
fazer com que o aluno acredite que as teorias ensinadas são a verdade absoluta
incontestável, e que não paira nenhum tipo de dúvida sobre sua validade e
aderência com o mundo real. O aluno se forma com a falsa impressão de que as
teorias que aprendeu são sólidas, e fica muito mais inflexível a possíveis
críticas.
Convido você a
refletir um pouco sobre essa polêmica específica e depois procurar em outros lugares
as contestações de outras teorias econômicas. Quem sabe não faço no futuro
alguns posts adicionais dentro desse tema?
Aqui segue a
reportagem escrita por Loya. Destacado em amarelo estão os meus comentários pessoais que
introduzi no meio do texto.
Neofisherianismo: vai entender
Valor Econômico,
03/02/2017, por Eduardo Loyo
Trazida à baila no
Brasil por André Lara Resende (no Valor de 13/1), a
"teoria neofisheriana" suscitou enorme perplexidade: primeiro, pela
alegação de que apertos monetários elevam ao invés de reduzir a inflação; além
disso, por serem proponentes dessa tese economistas que, no ferramental, são
estritamente ortodoxos. Em que bifurcação terão neofisherianismo e ortodoxia
divergido, para chegar a conclusões opostas? Voltando os olhos das conclusões
para suas hipóteses originárias, o que, na raiz, distingue o neofisheriano do
ortodoxo?
Para quem não está acostumado com o desnecessário
jargão econômico, “apertos monetários” nesse caso quer dizer aumento da taxa de
juros nominal básica da economia, a
taxa Selic. Essa é uma taxa definida pelo Comitê de Políticas Monetárias
(COPOM), formado pelo presidente e certos diretores do Banco Central do Brasil.
Um departamento do Banco Central, conhecido como Demab, é responsável por
realizar operações no mercado a fim de garantir que a taxa de juros Selic fique
na meta estabelecida pelo COPOM.
Aqui, Loyo coloca de forma clara o principal ponto
do artigo que critica: “enorme perplexidade (...) pela alegação de que apertos
monetários elevam ao invés de reduzir a inflação”. Isto é, Loyo alega que boa
parte da comunidade de economistas ficou perplexa com o ataque a uma das
teorias econômicas ortodoxas mais fundamentais, de que aumento dos juros nominal contribui para redução da
inflação.
Realmente, é de se imaginar que muitos economistas
ficam perplexos ao lerem tal ataque, ainda mais de alguém “do mesmo time”, isto
é, um suposto economista ortodoxo renomado.
Sem entender isso
direito, fica difícil avaliar os méritos de cada lado no debate. É um esforço
extra nesse sentido, enfrentando as tecnicalidades indispensáveis, que propomos
fazer aqui. Não é exatamente trivial - percebê-lo, porém, faz parte da
mensagem.
Aqui Loyo já avisa, com razão, que esse assunto não
é trivial e envolve diversas “tecnicalidades indispensáveis”. Infelizmente,
essa é a verdade. Quem quer discutir esse tipo de assunto tem que entrar em questões
técnicas. Sinto muito, não tem jeito.
Aporética monetária
A apresentação usual
do neofisherianismo parte da equação de Fisher (eq/F), que relaciona o
juro nominal (R) ao juro real (r) e à inflação ( p ): R =
r + p . Sem mais, ela não passa de um reordenamento algébrico da
definição do juro real, a distância entre juro nominal e inflação. Não poderia
nascer de discordâncias sobre a validade da fórmula, inequívoca como é, o cisma
entre neofisherianismo e ortodoxia.
A eq/F começa
a virar teoria ao incorporar os preceitos de que o juro real de equilíbrio
depende de traços comportamentais e tecnológicos da economia e de que a
política monetária tem sobre ele influência apenas passageira. Mas o
neofisherianismo e a ortodoxia monetária também compartilham esses postulados.
Modelos monetários modernos partem justamente da relação entre juro nominal e
inflação (e, nos mais complexos, outras variáveis) imposta pelos fundamentos do
juro real. Em versões simples, essa relação é a eq/F em
pessoa, talvez ornada pela explicitação dos fatores que determinam o juro real
de equilíbrio. Tanto na ortodoxia quanto no neofisherianismo são comuns as
margens para que o juro real seja transitoriamente afetado pela política
monetária, mas não para que o seja de forma duradoura.
“começa a virar teoria ao incorporar os preceitos
de que o juro real de equilíbrio
depende de traços comportamentais e tecnológicos da economia e de que a política
monetária tem sobre ele influência apenas passageira. (...) Mas o
neofisherianismo e a ortodoxia monetária também compartilham esses postulados”.
Com essa frase, Loyo fala de um ponto essencial da teoria
ortodoxa. Os economistas ortodoxos acreditam que o juro real – o diferencial entre juro nominal e inflação – não é controlável no longo prazo. Isto é, no
longo prazo, os juros reais dependem
de fatores culturais, comportamentais e tecnológicos, mas não dependem
da política monetária. Apenas no curto prazo a política monetária pode temporariamente
interferir nos juros reais.
Eu, que de certa forma represento algumas escolas econômicas
heterodoxas, discordo 100% dessa teoria. Acredito que existem determinados
fatores que geram a inflação, que não têm ligação (ou têm pouca ligação) com a
taxa de juros nominal ou real. Por isso, ao ter total controle sobre a taxa de
juros nominal, o Banco Central do
Brasil acaba sim tendo total controle sobre a taxa de juros real da economia, no curto, médio e
longo prazo. Se o Banco Central optar por subir a taxa de juros, ele não
vai influenciar na inflação, e, portanto, vai acabar aumentando a taxa de juros
real do país – já que o diferencial entre a taxa de juros nominal e a inflação aumentaria. Portanto, não estou nem com André
Lara Resende e nem Loya nessa teoria.
Sendo pacíficos esses
pontos, parece trivial tirar da eq/F a conclusão iconoclasta
de que juro nominal R mais alto levará, cedo ou tarde, a
inflação p mais alta. Daí quem preza a familiaridade da ortodoxia
instintivamente acorrer às duas escapatórias mais imediatas de que dispõe
alguém que caia num enrosco assim, intuindo estar nelas a distinção primordial
entre as cadeias dedutivas ortodoxa e neofisheriana, e a chave para
compatibilizar com a eq/F a crença em apertos monetários serem
desinflacionários.
A palavra “iconoclasta” está ligada a um contexto
religioso. O autor utilizou essa palavra provavelmente para se aproximar do
leitor, e não para dar um tom religioso ao texto. Porém, fica impossível deixar
de associar a teoria econômica com religião, já que é isso que ela se tornou. As palavras “heresia” e "canônico" também vão aparecer no texto, dando ainda mais força para
essa interpretação. Hoje, a “ciência econômica” é muito mais ideologia e religião
do que fatos concretos científicos e evidências empíricas. Mas esse é assunto
para outro post.
Aqui Loya declara sua principal interpretação da
teoria que critica (aquela descrita de André Lara Resende em um artigo anterior).
Para ele, André parte da premissa de que a taxa de juros real, no longo prazo, é determinada por fatores comportamentais e
tecnológicos, e não pela política monetária. Portanto, se a taxa de juros nominal subir, a inflação também terá
que subir – essa é a única maneira da taxa de juros real ficar constante. Portanto, aumento da taxa de juros nominal acarreta no aumento da
inflação. Loya diz que essa é a teoria por trás do pensamento da André. Eu,
pessoalmente, acredito que não é essa teoria que guia André, mas posso estar
errado. Isso também seria debate para outro post.
A primeira
escapatória é a variabilidade do juro real, mesmo de curta duração, ao sabor
dos ciclos monetários. Ela de fato existe e é essencial para o impacto da
política monetária na atividade econômica; este, por sua vez, é crucial em
retratos realistas da transmissão da política monetária para a inflação: juro
nominal mais alto torna o juro real temporariamente mais alto, que deprime o
nível de atividade, que pressiona para baixo a inflação. E juro real maior, por
um tempo, abre espaço na eq/F para que juro nominal maior
possa vir acompanhado de inflação menor.
Por esse argumento, contudo,
o neofisherianismo não terá desmentida sua alegação de que, passado o impacto
transitório do aperto monetário sobre o juro real, juro nominal mais alto causa
inflação mais alta. Seria muito pouco consolo para a ortodoxia que apertos
monetários reduzissem a inflação por um breve período inicial, mas que,
mantidos, acabassem se tornando contraproducentes. Ou que apertos monetários
temporários resultassem inócuos para o patamar em que a inflação afinal se
acomodará. Continuariam aparentando ser essas as previsões contraintuitivas da eq/F.
Aqui, Loya está sendo didático apenas. Aliás, ele
está fazendo um bom trabalho nesse aspecto, deixando bem clara quais são as
principais premissas da teoria ortodoxa, sem ser pretensioso e arrogante.
A segunda escapatória
instintiva lembra que correlação não é causalidade: juro nominal alto pode
andar junto com inflação alta, como manda a eq/F, mas isso não quer
dizer que o juro determine a inflação. Dito nesses termos, fica parecendo que o
juro nominal é, pelo contrário, o polo passivo na eq/F, equação que
só entraria em campo com a inflação já fixada em algum outro plano, para
estipular o juro nominal condizente com ela e com o juro real demandado por
investidores. Mas essa visão é incongruente com a premissa, que permeia toda a
ortodoxia moderna, de que o juro nominal é o "instrumento" de
política monetária, discricionariamente calibrado pelo BC a cada momento (só
não podendo cair muito abaixo de zero), calibragem esta cuja finalidade
precípua não é outra senão manipular a trajetória da inflação.
Aqui fica bem clara mais uma teoria ortodoxa da
qual, representando algumas teorias heterodoxas, discordo. “Dito nesses termos,
fica parecendo que o juro nominal é, pelo contrário, o polo passivo na eq/F,
equação que só entraria em campo com a inflação já fixada em algum outro plano”.
Algumas escolas heterodoxas acreditam exatamente nisso: de que a inflação é
fixada em algum outro plano que não está relacionado com os juros reais ou
nominais. E essa visão é sim incongruente com a premissa de que o juro nominal
é o “instrumento” de política monetária. E que o juros nominais são o polo
passivo da eq/F – representam uma decisão do Bacen que é consequência, e não
causa, da inflação. Bingo. Mas essa não é a visão de Loya, e também não parece
ser a visão de André.
Com esse paragrafo, Loya estava buscando ser
didático, e não trazer a polêmica de economistas heterodoxos. Portanto, vamos
continuar em frente.
Como fica a ortodoxia
se essas escapatórias à conclusão neofisheriana de que juro nominal alto causa
inflação alta são insatisfatórias à luz da própria teoria convencional? A
discussão aqui nem é se a teoria ortodoxa se coaduna ou não com a realidade,
mas sobre um passo prévio, que é tirar da teoria, a partir de suas próprias
hipóteses, conclusões logicamente válidas. Pode a profissão ter insistido todo
esse tempo no autoengano de que - em teoria pelo menos - aperto monetário reduz
a inflação, tendo debaixo do nariz uma equação que dita o contrário?
Princípio de Taylor
A pergunta retórica
já deixa antever que a resposta é não.
O primeiro aspecto a
considerar é que a ortodoxia monetária, embora entendendo que o BC controla ao
seu bel prazer o juro nominal curto a cada momento, não admite que o faça
sistematicamente à revelia dos dados econômicos - em particular, da inflação.
Em economês, os BCs não podem se dar ao luxo de manipular o juro curto de forma
totalmente "exógena": precisam seguir, exceto por desvios ocasionais,
certos padrões de reação à inflação. Em particular, é preciso que sua reação a
um aumento da inflação seja em regra um aumento ainda maior do juro nominal (e,
vice-versa, que uma queda da inflação leve a uma queda ainda maior do juro
nominal). Esse é o chamado "princípio de Taylor" (pr/T).
A “ortodoxia monetária (...) não admite que" o
BC controle ao seu bel prazer o juro nominal "à revelia dos dados
econômicos". Esse é mais um ponto de discordância entre teorias
heterodoxas e a ortodoxa. Algumas escolas heterodoxas acreditam sim que o BC
possa controlar a seu bel prazer o juro nominal, particularmente o definido
como zero sempre, independentemente da inflação. Isso é defendido, por exemplo,
pelo economista Warren Mosler. Mas, enfim, esse também é um tema para outro
post. Não é esse tipo de polêmica que Loya quis trazer nesse parágrafo.
A pena por
desrespeitar o pr/T, segundo a teoria convencional, não é inflação
somente mais alta ou volátil, mas sim completamente fora do controle da
política monetária. Nessas circunstâncias, por razões cuja tecnicalidade me
dissuade de explorar aqui, a inflação resulta completamente indeterminada: pode
ser qualquer coisa, a qualquer momento, dependendo apenas de que tipo de expectativas
os agentes econômicos formam a respeito. Fica aberto o caminho para
"profecias autorrealizáveis", em que a inflação pode ser ora muito
alta só por se esperar que seja assim, ora baixa apenas porque essa é a crença,
e nenhum desses resultados está ancorado pela política monetária.
Aqui, mais uma teoria ortodoxa coloca de forma
muito clara: “A pena por desrespeitar o pr/T, segundo a teoria convencional,
não é inflação somente mais alta ou volátil, mas sim completamente fora do
controle da política monetária”.
Ou seja, economistas ortodoxos acreditam que, se a
regra de Taylor não for seguida pelo Banco Central, a consequência será a
inflação explosiva. Porém, muitos economistas heterodoxos acreditam que não
existe uma relação significativa entre juros nominal ou real e inflação, e que
a inflação é gerada por outros fatores.
Que fatores? Não existe consenso. Cada escola de
pensamento defende uma visão diferente. Eu, pessoalmente, acredito que a
inflação é uma consequência do nível de preços dos servidores e funcionários
públicos e de outros preços definidos unilateralmente pelo governo e suas
agências governamentais. Os salários dos servidores e empregados públicos, por
sua vez, são decorrência das políticas públicas, envolvendo o orçamento da União,
Estados e Municípios, concorrência entre agências públicas no mercado de
trabalho, regras salariais e de investimento público, lei dos servidores, tetos
remuneratórios, etc.
Por outro lado,
respeitar o pr/T, prossegue o raciocínio ortodoxo, elimina essa
indeterminação. O argumento é de novo mais técnico do que convém explorar aqui,
mas envolve a constatação de que, respeitado o pr/T, só há a cada
momento uma taxa de inflação condizente com a expectativa de que a economia não
embarque a partir daí num tipo particular de profecia autorrealizável, que é
uma espiral inflacionária ou desinflacionária sem fim. Considerando-se
implausível que se esperem tais "bolhas" de inflação, descartam-se
taxas de inflação que só seriam justificadas, num dado momento, por
expectativas como essas a respeito do futuro. Sobra, assim, apenas um nível
possível para a inflação.
“o argumento é de novo mais técnico do que convém
explorar aqui”. Quando isso aparecer em qualquer texto, leitor, uma luz amarela
deve se acender na sua cabeça. Isso pode ser sinal de que supostos “cientistas”
moveram mundos e fundos para criar uma explicação exoticamente mirabolante para
defender uma ideia indefensável – e o autor não consegue sequer descrever essa
explicação, de tão absurda que é. Eu, pessoalmente, acredito que esse é o caso
da Curva de Phillips e suas variantes, a teoria que o Loya não quis explicar.
Porém, Loya e a maioria dos economistas acreditam
sinceramente na Curva de Phillips e suas variantes. Não é má fé. Isso é uma
consequência de algo comum no mundo das ciências sociais: às vezes é
extremamente difícil fornecer dados empíricos suficientes para que possamos
conclusivamente rejeitar ou aceitar uma hipótese. E, na prática, os economistas
acreditam naquilo que são ideologicamente inclinados a aceitar, ou naquilo que
foram ensinados de forma contundente durante a graduação ou pós-graduação.
O que Loya está colocando aqui são as “expectativas
racionais”, de que a inflação é gerada pela expectativa dos agentes econômicos,
formada pela expectativa das decisões do Bacen sobre os juros. É isso que está
por trás da Curva de Phillips.
Suponha então que o
juro nominal seja fixado pelo BC em reação à inflação, obedecendo ao pr/T.
Um retrato estilizado disso é uma "função de reação" como R =
k p + z, onde k é um número maior que 1 (de
modo a satisfazer ao pr/T) e z é um termo que o BC
controla de forma arbitrária e independentemente da inflação. Variações de z podem
representar desde perturbações ocasionais na calibragem de R, até
algo perene como uma mudança da meta de inflação (fazendo z = -k p *,
por exemplo, o BC estaria reagindo a desvios da inflação em relação à
meta p *).
Nesse contexto, um
aperto de política monetária é medido não pelo aumento de R, mas
sim pelo aumento de z. Em palavras, não se trata de saber o quanto
o juro sobe, mas de saber quanto sobe o juro praticado pelo BC diante de cada
taxa de inflação. Esse critério de medição, atentando que a política monetária
ao mesmo tempo afeta de alguma maneira a inflação, mas, em contrapartida, é
afetada por ela de acordo com a função de reação do BC, cuida de separar o
componente do movimento do juro que é uma genuína mudança de atitude da
autoridade monetária, do que é o efeito indireto adicional que essa mudança de
atitude tem sobre o juro como reflexo automático de seu efeito sobre a
inflação.
Um aumento de z eleva
o juro nominal que vigoraria se a inflação não se mexesse, de acordo com a
função de reação do BC. Porém, se a inflação não se mexesse, não poderia mudar
(dado r) o juro nominal consistente com a eq/F. Para
realinhar o juro nominal até aqui inalterado da eq/F com o
juro agora mais alto da função de reação não há outro remédio a não ser uma
mudança do nível da inflação. E é para baixo que ela tem que se mover, pois,
com k > 1, essa queda reduz k p mais do que reduz
p , reduzindo o juro da função de reação mais do que o juro da eq/F,
e permitindo que, nessa queda de ambos, quem partiu de um nível mais alto
alcance quem largou mais de baixo. É justamente na medida necessária para
restabelecer esse alinhamento que a teoria propõe que a inflação cairá.
Em suma, a correlação
positiva que a eq/F impõe entre inflação e juro nominal se
reconcilia com o efeito desinflacionário canonicamente atribuído a apertos
monetários mediante duas considerações: primeiro, na abordagem ortodoxa, a
política monetária só é funcional se o BC satisfizer ao pr/T;
segundo, estando presente um padrão sistemático de reação do juro à inflação,
aperto monetário não deve ser identificado com elevação pura e simples do juro
nominal, mas sim com elevação do juro que seria praticado diante de cada nível
hipotético da inflação. Esse aperto de política monetária, no fim do dia,
conduz a inflação mais baixa (como se espera), e a juro nominal igualmente mais
baixo (como, dada a inflação menor, requer a eq/F). Mas o juro
nominal só terá caído porque a inflação também terá caído, graças à postura
monetária mais rigorosa que o BC passou a adotar.
Novamente, essa é a toeira das “expectativas
racionais”. A inflação seria causada pela expectativa dos agentes econômicos,
que seria influenciada, entre outros fatores, pela própria taxa de juros. Portanto,
segundo a visão ortodoxa, a inflação é sim influenciada de forma inversa pela
taxa de juros nominal, através de mecanismos que o autor preferiu não explicar
para evitar tecnicidades.
A cozinha do neofisherianismo
É contra o critério
convencional de "seleção de equilíbrio" baseado no descarte das
profecias autorrealizáveis explosivas para a inflação, essencialmente, que o
núcleo da literatura neofisheriana se insurge. Questiona a viabilidade de
sequer se respeitar sistematicamente o pr/T, em particular quando o
juro nominal se aproxima do zero, mas antes de tudo critica a própria lógica de
descartar trajetórias que requeiram a expectativa de bolhas de inflação.
Contempla então diferentes critérios alternativos de seleção de equilíbrio, ou
de sua própria lavra, ou tomando emprestado de formulações teóricas
preexistentes. Um deles vem da chamada Teoria Fiscal do Nível de Preços,
desenvolvida nos anos 90, cujo uso elimina a novidade do rótulo
"neofisheriano" aplicado ao modelo resultante; outros critérios podem
ser mais originais e nada ter a ver com variáveis fiscais.
Talvez seja esse mesmo o ponto de bifurcação entre
a teoria de Loya e a de André.
Esses critérios
alternativos de seleção de equilíbrio envolvem considerações complicadas, que
diferem nos resultados e na interpretação dos mecanismos que regerão o
comportamento da economia, mas todos têm uma consequência em comum: estando
operativo qualquer um deles e, ao mesmo tempo, sendo observado o pr/T,
a economia enveredará numa daquelas espirais inflacionárias ou
desinflacionárias que a teoria convencional liminarmente descarta. Por isso,
não surpreende que o neofisherianismo se interesse mais por circunstâncias em
que possa presumir que o pr/T (seja ele, em geral, plausível
ou não) é desrespeitado, de modo a conciliar seus critérios alternativos de
seleção de equilíbrio com a razoável estabilidade da inflação observada mundo
afora.
Se a função de reação
do BC tiver a mesma forma que consideramos acima, mas, violando o pr/T, k
< 1, então a inflação poderá partir do patamar inicial ditado por
qualquer critério de seleção de equilíbrio ao gosto neofisheriano e convergirá
sempre para o nível ao qual, na função de reação do BC e na eq/F, correspondam
valores iguais do juro nominal.
Nessa economia, se a
política monetária aperta (no mesmo sentido de antes: aumenta z), a inflação
realmente sobe, assim como o juro nominal. Talvez não suba de imediato,
veredito que é sensível ao critério de seleção de equilíbrio empregado, mas
convergirá para um patamar mais alto. Isso porque o aumento de z, tudo mais
constante, novamente torna o juro da função de reação maior do que o juro da eq/F;
mas, para que o empate entre os dois se restabeleça, agora que k < 1 não
há remédio a não ser p aumentar, fazendo-o mais intensamente
do que kp e possibilitando que o valor de R da eq/F alcance
o da função de reação. Eis o "paradoxo do aperto monetário" que
distingue o neofisherianismo - desta vez, não como mera correlação positiva
entre juro nominal e inflação (correlação que se verifica também no arcabouço
ortodoxo), mas na forma de verdadeira causalidade da política de juros para a
inflação.
Ok. O autor fez algo que muitos economistas
deveriam fazer, mas não fazem: refletir sobre teorias econômicas alternativas
àquelas em que acredita. Não tenho certeza de que é esse realmente o ponto de
vista de André Lara Resende, mas o exercício é interessante. Parabéns a Loya e
a todos que fazem esse tipo de reflexão.
E daí?
O leitor (se é que
chegou até aqui) deve estar extenuado pelas tecnicalidades. Mas não há outra
forma de mostrar que são questões de altíssima indagação teórica como essas que
estão no âmago da heresia neofisheriana: a razoabilidade ou não do princípio de
Taylor em diferentes circunstâncias e, em modelagens que se caracterizam por
múltiplos equilíbrios associados a profecias autorrealizáveis, controvérsias
tão herméticas (mesmo para economistas profissionais) quanto as que cercam a
inevitável adoção de um "critério de seleção de equilíbrio". Não se
trata, ao contrário do que fazem crer algumas explicações enganosamente
acessíveis, da aplicação direta de algo tão simples quanto a equação de Fisher.
Essa equação, aliás,
é dogma comum ao neofisheriano e ao ortodoxo. A despeito das primeiras
aparências, ela não impõe a conclusão inusual de que apertos monetários,
adequadamente definidos como juros nominais mais altos para cada patamar de
inflação, são inflacionários. A equação é, inclusive, pressuposto central na
estrutura da qual a teoria moderna extrai o resultado paradigmático,
referendado por metodologias de sucessivas gerações, de que apertos monetários
- a não ser em circunstâncias muito, muito especiais - reduzem a inflação.
Por mais engenhoso e
intelectualmente estimulante que possa ser enquanto linha de pesquisa
acadêmica, por mais precoce que seja sua popularidade em certas regiões da
blogosfera, e por mais tentadora que soe, no Brasil de hoje, sua promessa de
obter da redução rápida dos juros impulso de curto prazo à atividade econômica
e ajuda na convergência da inflação, o neofisherianismo ainda é exploratório e
marginal demais no corpo da ciência econômica para avalizar o mergulho numa
política monetária experimental, norteada pela total contraversão do senso
comum.
Eduardo Loyo é
economista-chefe do Banco BTG Pactual e diretor do Centro de Debate de
Políticas Públicas (CDPP)
Nesse último parágrafo, Loya coloca seu ponto
principal: essa teoria é nova demais para ser utilizada imediatamente. Essas
ideias precisam ser amadurecidas. Não vamos utilizá-las agora. O censo comum
atual é de que aumentos da taxa de juros contribuem para abaixar a inflação,
então vamos continuar seguindo assim, enquanto outras teorias alternativas não
se desenvolvem e se mostram válidas – se é que vão se tornar válidas um dia.
O grande problema é que a teoria econômica já se
mostra problemática e inconsistente com o mundo real há décadas. Será que já
não passou da hora de questionarmos a ortodoxia e o “senso comum”?
Espero ter conseguido cumprir bem o objetivo principal, e
mostrar como as teorias econômicas ortodoxas mais fundamentais geram
discordância mesmo entre os economistas mais renomados.
Espero também ter cumprido meu objetivo secundário, de
mostrar alguns pontos de teorias heterodoxas. Esse assunto não é fácil e
contempla diversos conceitos técnicos complicados. Parabéns para você que teve
coragem de chegar até o final!

