quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Reflexões do Cotidiano - Trânsito e Leis

Essa notícia de hoje (02/02/2017), publicada no jornal Folha de São Paulo, mostrou um engarrafamento causado por um farol queimado no cruzamento da Av. Presidente Juscelino Kubitschek com a Av. Brigadeiro Faria Lima.


A imagem é engraçada de tão trágica. Os motoristas acabaram se colocando em tal situação que ninguém mais conseguia sair do lugar. Já participei de um nó desse tipo, que só foi resolvido depois que um marrozinho chegou de moto e começou a coordenar, com muita reclamação, o desmonte daquela confusão. Lembro que, na época, pensei que também não ficaria muito feliz se estivesse na pele dele.

Esse tipo de situação traz uma reflexão importante: se, com leis, o trânsito em São Paulo já é difícil, imagine como seria sem elas. Por leis, entenda os faróis, a definição de mãos e contra mãos, locais permitidos de estacionamento, limites máximos de velocidade, locais adequados para conversão, faixas exclusivas de ônibus, ciclovias e todas as outras regras - e as multa para quem desobedecer tudo isso.

O trânsito em uma grande metrópole envolve a interação complexa entre os diversos membros da sociedade: motoristas, pedestres, ciclistas, motoqueiros, caminhoneiros, taxistas, passageiros, etc. Sem uma coordenação minimamente satisfatória, o trânsito necessariamente vai se tornar o caos.

E é daí que a solução se dá através de uma autoridade central - o governo do Município de São Paulo - capaz de coordenar todo o trânsito através de leis adequadas e fiscalização frequente. Talvez ainda não seja o melhor dos mundos. Eu, como cidadão de São Paulo, sei o quão ruim o transporte é nessa cidade, mas certamente a atual insatisfatória atuação do governo é melhor do que atuação nenhuma. Faróis queimados as vezes deixam esse argumento claro de uma maneira tão óbvia quanto a imagem da notícia do jornal.

O "mercado livre e competitivo" que muita gente aprende nas aulas introdutórias de economia simplesmente não se aplica ao trânsito. Se cada um fizesse o que quisesse nas ruas da cidade, tudo seria extremamente ineficiente, ao contrário do que essa teoria simplista coloca para os mercados perfeitamente competitivos. Além de ineficiente, provavelmente o trânsito seria mais perigoso do que já é.

É claro que é difícil comparar um mercado ao trânsito. Esses são dois ambientes muito diferentes, e nem sequer parece muito intuitiva a possibilidade de compará-los. Porém, da mesma forma que o trânsito, a vida real - política, econômica e financeira - também não é comparável ao modelo de "mercado livre" econômico, ao contrário do que alguns políticos as vezes sugerem.

O governo tem seu papel importante, e nem sempre sua "intromissão" através de regulamentações e proibições tem efeito negativo na vida do cidadão. As vezes temos que refletir muito para esquecer das aulas de economia e se lembrar de algo tão óbvio.

Essa é uma mensagem principalmente aos meus amigos que são extremamente pró-mercado - talvez na mesma medida que são contra o governo. E também para os possíveis leitores anarquistas (se é que eles ainda existem) que, apesar de serem contra o mercado, também são contra o governo.

Na próxima vez que estiver dentro de um ônibus lotado e abafado preso no maior engarrafamento da sua vida, lembre-se de, após xingar o prefeito, agradecer por a coisa não ser ainda pior: a anarquia completa.

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